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Contos

Solidariedade

Um pequeno pardal pousou no parapeito do meu quarto.

Eu podia vê-lo da cama, ainda que deitada.
Ele também me via.
As penas eram acinzentadas e sujas
e o bico era meio desencontrado.
Mas os olhos eram brilhantes,
duas minúsculas bolitas de caramelo.

Ele espanou-se um pouco e virou a cabeça
para me ver com cada um dos seus olhinhos lateralizados.

Eu não conseguia mexer-me.
O corpo pesava de dor.

Então ele entrou.
Voou sobre a cama e pousou no cobertor perto dos meus pés.
Aninhou-se aconchegado como faz meu gato Fredo
e me comoveu com seu gesto de confiança.

Podendo voar ele ficou ali, comigo.

Então conversamos.
Eu lhe contei meus medos,
minhas dores,
minha vontade de ter asas.
Ele me falou que o vento é bipolar, um dia carícia, outro chicote.
Descreveu banquetes de migalhas
e pareceu chorar quando lembrou da crueldade dos estilingues
e das armas de chumbinho.
O pardalzinho foi falando e falando
e meus olhos piscando e piscando.

Quando acordei havia apenas uma peninha nas cobertas.

Ele se fora.

Mas deixara a lembrança querida
talvez para que eu não pensasse que sua adorável visita
tivesse sido somente um sonho.

Bárbara Sanco
04/11/2015