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Contos

Game Over

Começa o jogo.
Ai, meu pé esquerdo está doendo mais que o direito. Acho que estão reclamando a saudade de 20 anos de salto alto, já que hoje calcei um tênis chatinho.

É deve ser isso mesmo, o incômodo me faz entender com significação mais concreta o adjetivo. Mas que fazer, preciso caminhar até o ônibus.

Saio do prédio e alcanço a rua e nela as luminárias do passado são árvores de fogo branco, entre mesas de plástico apinhadas de gente, num happy hour esticado.

Deixo minha colega num táxi e sigo pelo calçamento de pedras. Os bares ficaram para trás. O burburinho vai virando sussurro.

Abro um meio sorriso ao lembrar aquela barba grisalha e cônica vestida de paletó e gravata cinza que visitou a sala de aula hoje. Que figura!

Dou-me conta que as pessoas rareiam e que virei recheio entre o comércio de portas fechadas. Dá um friozinho na barriga, receio de ser assaltada, então apresso meu manquitolar.

Transmuto o medo em coragem ao encarar a tarefa como aventura. Há quem pague para sentir medo na montanha russa, pelo menos medo de assalto é de graça!

Já perto da parada escuto a música ao vivo que vem do Chalé e que dá trilha sonora para minha façanha.

Que sorte, o Carlos Gomes na parada espera eu embarcar. Pago a passagem e desligo o alerta máximo, fim da primeira fase.

As próximas, desembarcar e caminhar uma quadra até em casa são de baixo grau de dificuldade e venço sem esforço.

Chave na porta, game over, em casa ilesa guardo os bônus de vida para o jogo de amanhã.


Publicado no Recanto das Letras.

Uma versão inspirada, ultra resumida e com o mesmo título tornou-se um miniconto selecionado para o projeto POA tuitada e foi publicado no livreto de mesmo nome em 2014.

Bárbara Sanco
06/09/2012