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Crônicas

Sorte de Principiante

A primeira vez que matei alguém senti culpa. A pessoa nem era tão má, talvez não merecesse a pena capital e nada tinha me feito que motivasse um certeiro tiro na testa ou uma boa dose de cianureto. Mas eu estava experimentando novas sensações e então matei, matei mesmo.

Foi uma forma de laboratório. A culpa foi passando à medida que matar tornou-se mais corriqueiro. A cada personagem que morria eu enterrava também algo de mim que eu não gostava, uma lembrança amarga, alguém que eu não queria ser.

Tornou-se uma terapia, porém ao contrário do que possa parecer eu dou muito valor à vida alheia. E por mais que possa ter a vontade e o vivente merecer nunca faria na vida real o que faço na ficção. Por isso não consigo entender essa inspiração assassina de fazer picadinho de gente.

O caso Yoki, hoje notório e motivo de piada, é na verdade uma tragédia, ou alguém conseguiria fazer algo parecido com o que fez a Elize Kitano Matsunaga, sem ter antes enlouquecido?

Para minha terrível surpresa parece que sim.

Li essa semana no jornal que no Vale do Taquari um rapaz de 26 anos matou a ex-mulher, na sala de casa, a facadas e escreveu na parede, com sangue, o seguinte recado:

- Mãe, desculpa! - em alemão.

Não satisfeito decapitou a moça de 22 anos e levou a cabeça para passear de motocicleta. Parou perto de um matagal, largou a moto, a cabeça, uma garrafa de cachaça e desapareceu. Isso não me parece uma oferenda.
Talvez ele tenha bebido uns goles acariciando os cabelos de sua amada. Vai saber!

A polícia não divulgou o nome do homem que está foragido, então vou chama-lo de MCC – Motoqueiro Com a Cabeça numa paródia de gosto duvidoso ao Cavaleiro Sem Cabeça.

Fico pensando essas bobagens porque dá medo cogitar quantos MCCs e Elizes existem por aí, tornando singelo nosso imaginário experimentado, se comparado à originalidade macabra, que abusa de criatividade, aplicada em seus crimes de primeira vez.

De qualquer forma, se seu ex-marido fala alemão e tem uma motocicleta pense duas vezes antes de deixa-lo irritado ou capriche no estoque de sacos de lixo e compre duas malas grandes.

19/09/2012


Publicado no Recato das Letras.

Bárbara Sanco
26/11/2016