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Crônicas

Pequenas Atitudes - Nobres Resultados

Ao desembarcar noite destas no centro de Porto Alegre, em companhia de meu filho Artur, tentei rapidamente, pois estávamos atrasados para um compromisso, localizá-lo na cidade, apontando-lhe pontos de referência como a Prefeitura e o Mercado Público.

Qual não foi minha surpresa ao ver em frente do Chalé da Praça XV um estacionamento de bicicletas. Meu primeiro sentimento foi de pesar, já que não havia nenhuma magrela para eu mostrar ao pequeno e a ele explicar a serventia de tal disposição de ferragens, mas no mesmo instante mudei de ânimo.

Aqueles lugares vazios significavam que vários ciclistas transitavam pela cidade, exercitando saúde e cidadania. Enquanto nós caminhávamos para nosso destino e a conversa corria solta sobre outros assuntos uma segunda voz em minha mente saudava a coragem daqueles que enfrentam o mau humor do tempo e dos motores empunhando suas bicis, e de todas as pessoas que, muitas vezes na contramão do conforto, fazem sua parte para um mundo melhor.

03/10/2012

 

Publicado no Recanto das Letras.

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Sorte de Principiante

A primeira vez que matei alguém senti culpa. A pessoa nem era tão má, talvez não merecesse a pena capital e nada tinha me feito que motivasse um certeiro tiro na testa ou uma boa dose de cianureto. Mas eu estava experimentando novas sensações e então matei, matei mesmo.

Foi uma forma de laboratório. A culpa foi passando à medida que matar tornou-se mais corriqueiro. A cada personagem que morria eu enterrava também algo de mim que eu não gostava, uma lembrança amarga, alguém que eu não queria ser.

Tornou-se uma terapia, porém ao contrário do que possa parecer eu dou muito valor à vida alheia. E por mais que possa ter a vontade e o vivente merecer nunca faria na vida real o que faço na ficção. Por isso não consigo entender essa inspiração assassina de fazer picadinho de gente.

O caso Yoki, hoje notório e motivo de piada, é na verdade uma tragédia, ou alguém conseguiria fazer algo parecido com o que fez a Elize Kitano Matsunaga, sem ter antes enlouquecido?

Para minha terrível surpresa parece que sim.

Li essa semana no jornal que no Vale do Taquari um rapaz de 26 anos matou a ex-mulher, na sala de casa, a facadas e escreveu na parede, com sangue, o seguinte recado:

- Mãe, desculpa! - em alemão.

Não satisfeito decapitou a moça de 22 anos e levou a cabeça para passear de motocicleta. Parou perto de um matagal, largou a moto, a cabeça, uma garrafa de cachaça e desapareceu. Isso não me parece uma oferenda.
Talvez ele tenha bebido uns goles acariciando os cabelos de sua amada. Vai saber!

A polícia não divulgou o nome do homem que está foragido, então vou chama-lo de MCC – Motoqueiro Com a Cabeça numa paródia de gosto duvidoso ao Cavaleiro Sem Cabeça.

Fico pensando essas bobagens porque dá medo cogitar quantos MCCs e Elizes existem por aí, tornando singelo nosso imaginário experimentado, se comparado à originalidade macabra, que abusa de criatividade, aplicada em seus crimes de primeira vez.

De qualquer forma, se seu ex-marido fala alemão e tem uma motocicleta pense duas vezes antes de deixa-lo irritado ou capriche no estoque de sacos de lixo e compre duas malas grandes.

19/09/2012

 

Publicado no Recato das Letras.

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Menos

Não tenho a audácia
de dizer que a vida me trouxe sabedoria,
talvez porque ainda seja cedo
para essa afirmação,
mas acredito plausível e sem excesso
crer que aprendi algumas lições com minhas experiências.


Uma delas é o menos.


Eu explico.


Normalmente desde muito cedo
todo convívio social nos impulsiona
num consenso popular
para o que consideramos ser “para frente”.


Seguir adiante apesar dos obstáculos
parece ser uma frase sem contestação.


Atrás de uma falsa ideia politicamente correta
de que o importante é competir
somos instigados,
quando isto já não faz parte do nosso íntimo,
a tomar gosto pela vitória.


Assim vamos adequando nossas convicções.


Se perdermos abraçamos a importância de competir.
Mas se ganhamos...
Bom, daí é outra história.


E com a euforia de constantes superações,
olhando sempre em frente nos sentimos poderosos.


E acredito que o mote da filosofia seja mesmo esse.


Mas só para não perder o costume
reservo-me o direito de ser contra corrente.


O conforto de ter certezas não vale a clareza de ter dúvidas.


Seguir sempre em frente
não pode encerrar um sentido em si mesmo.


Somos diversos,
impossível crer para todos um trajeto único.


Assusta-me a ideia de rebanho.


Quem sabe seja saudável
olhar também para trás e para os lados.


Quem sabe ir mais devagar,
e de mãos dadas com alguém.


Mergulhar menos vezes de cabeça
e mais vezes experimentar a água
com a ponta dos dedos dos pés.


Afinal até as mais belas virtudes precisam ser dosadas.


Fé demais é fanatismo.

Amor demais obsessão.


Sei que para alguns podem parecer palavras vazias.


Sei também que alguns dirão que são apenas palavras,
pois minha vida para ser exemplo
deve ser vista no carbono, não no papel.


Mas mesmo assim me arrisco
a continuar acreditando
que o melhor caminho parece ser o do meio.


E se pudesse reescrever
algumas de minhas histórias elas teriam muitos menos,
entre eles:
Menos trabalho.
Menos confiança.
Menos garra.
Menos força.
Menos crença.
Menos pressa.
Menos intensidade.


Porque ser intenso é bom para quem servimos
durante a vida,
mas nos consome rapidamente...

e às vezes nos esgota.

12/09/2012

 

Publicado no Recanto das Letras.

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Escolhas

Fui educada com a presença
de preceitos religiosos católicos
e até a juventude seus valores foram fortes formadores
da minha ideia de mundo e de vida.


Os anos me trouxeram novas experiências religiosas
e hoje sou crente num Deus de coisas impossíveis
e que por isso abriga quase todas as possibilidades
de expressão da religiosidade.


Historicamente a religião sempre dividiu os povos
gerando guerras que só podem ser chamadas de santas
se considerarmos que foram abençoadas
pela Santa Ignorância.


Mas para um observador mais atento
não há surpresa na constatação
de que as crenças religiosas tem mais em comum
do que dissonante.


Todas acreditam em uma certa forma de Amor redentor
e todas creem na existência
de alguma superioridade espiritual
e quase todas pregam que a vida, como a conhecemos,
é uma oportunidade de aprendizado,
evolução, salvação, retorno para o criador.


A nomenclatura é vasta
para dizer de como deve ser o comportamento humano
na opção por uma vida que aceita a espiritualidade,
que traduzida para ação diária
é optar por fazer mitigar a maldade
e enaltecer o bem.


Mas parece que a Torre de Babel,
a exacerbada elasticidade de interpretação
e todas as segundas intenções mundanas
que possam ser mascaradas pela fé
continuam nos separando.


Acredito que Deus considera isso
uma espécie de pecado.


Apesar de não ser uma praticante formal
de nenhuma religião,
sou uma pessoa de fé, de uma fé “pan”,
ainda fã das ideias do Cristo,
hoje agregadas de muitos outros pensamentos
a respeito de qual lente escolher
para ver tudo e todos, dentro, fora e através.


Assim muitas vezes escolho por ver as coisas
com um pouco mais de credulidade e leveza,
como fazia na infância
ao admirar as imagens sacras na igreja
e pensava que somente sendo santo
para suportar ficar todo tempo na mesma posição
e então rezava para que Deus
desse-me um pouco daquela paciência.


Parcece que tem funcionado...

 

Publicado no Recanto das Letras.

11/09/2012

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DNA

Sabe aquela música
que não sai da cabeça?


Aprendi que os alemães
chamam isso de "ohrwurm".


Achei ótimo ter um único termo
para o que hoje precisamos de toda uma definição.


Realmente engana-se
quem pensa
que para tudo existe
uma palavra em nossa Língua
que possa designá-la.


Existem muitos entes não batizados
e outros tantos
cujo nome recebido
não é definição pétrea.


Talvez seja este
um dos motivos pelos quais escrevo
sobre temas já visitados.


Na ânsia de esgotar
a busca do completo significado,
mesmo sabendo que o prazer dessa jornada,
como outras, ao menos para mim
será apenas a viagem
pois não serei eu
e não acredito
que alguém um dia consiga
dizer a última palavra
ainda não proferida
e que encerre
o que se pode dizer
sobre o Amor, a Solidão, estar vivo
e tudo mais que pode agregar as nuances
da experiência individual.


Creio que os sentimentos são como uma senha.


Todos recebem os mesmos elementos formadores
distribuídos de forma universal,
mas em cada um
eles se combinam de maneira única,
como um DNA.


Por isso mesmo historicamente
oprimidos e massificados
estamos fadados a singularidade
pois até o imponderável
em nós é único.

11/09/2012

 

Publicado no Recanto das Letras.

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Um tipo de Paz

Recebi dia desses um e-mail com o título “A Paz que eu trago em meu peito”.


O título é bem interessante e a mensagem em si mais ainda.


Refleti sobre ambos.


Creio que sobre este prisma possa dizer que a Paz que tenho hoje também é diferente da Paz que eu sonhei ter.


Tenho a paz de ter aprendido algumas lições e lidar com as minhas imperfeições, de saber pedir perdão, reconhecer carências, erros e medos.
Tenho a paz da fé, da consciência tranquila, do dever cumprido, de ter um coração que ama e de brincar com as crianças.


Mas para por aí, não tenho a paz de não querer que os outros não se modifiquem por minha causa.


Sempre quis e continuo querendo mudar a mim,

aos outros

e o mundo.

Nunca me contento com o que vejo, pois acredito que todo ser vivo, não somente as pessoas estão fadados a um destino comum: a evolução.


Então é preciso mudar.
Mudar sempre.
Provocar mudanças.


Nunca deixar que o comodismo do bom prevaleça sobre o sonho do melhor.


Então não tenho essa paz e no lugar dela tenho uma inquietude que me impele a novos passos na estrada de tijolos amarelos em busca de verdades fantásticas e respostas insólitas para problemas comuns.


Também não tenho a paz de poder sorrir e chorar quando quero.


Além disso tenho plena consciência de que não sei tudo, aliás sei que não sei o gostaria de saber e que acúmulo de conhecimento não traz sabedoria. Tenho pouquíssimas certezas e a cada dia reafirmo a verdade de que sou um ente de dúvidas.


Também busco o aprendizado do silêncio porque normalmente as palavras brotam de mim, como agora.


Enfim a paz que possuo é muito particular, mas não deixa de ser um tipo de paz.

07/09/2012

 

Publicado no Recanto das Letras.

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E se as sombrinhas se revoltarem?

Pensando sobre para onde vão os objetos perdidos lembrei que quando criança detestava minhas sombrinhas e tentava perde-las, muitas vezes sem sucesso.
Na escola, a servente que limpava minha sala corria chamando meu nome e empunhando aquele estampadinho floral com cabinho metálico escolhido pela minha mãe e lá se ia minha tentativa de desfazer-me dela.
No ônibus era mais fácil eu escondia embaixo do banco e poucas vezes alguém via a tempo de me devolver.
Foram tantas armações, feitas para me proteger da chuva, que escondi para tentar perder, que me deu agora uma espécie de medo.
E se elas estiverem todas em algum lugar ressentidas pelo meu desprezo?
Será que com a chegada do verão planejam esconder de mim o Sol como vingança? Espero que não.
Em algum buraco de Alice, devem estar fazendo companhias, para minhas sombrinhas perdidas, as fotos que guardei e nunca mais achei e com certeza muitas tarrachinhas de brinco que criam pernas e se aposentam ou são levadas por duendes. Sei lá!
Pergunto-me não só para onde vão os objetos perdidos, mas também se eles se sentem abandonados e vou me enchendo de arrependimentos.
Prometo nunca mais abandonar minhas sombrinhas.

06/09/2012

 

Publicado no Recanto das Letras.